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Nise ao lado do quadro Universal, de Emygdio de Barros . oleo sobre tela 1948 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | O livro Vermelho, Liber Novus. C.G JUNG (105) | O Livro Vermelho, Liber Novus. C.G JUNG. (97)

A Relação com Jung

Em 1954, Nise escreveu uma carta a C. G. Jung, enviando fotografias das pinturas produzidas no ateliê do Engenho de Dentro e levantando questões sobre a significação e a origem delas. A resposta do mestre foi imediata: as mandalas representavam o potencial autocurativo existente na psique, mobilizado espontaneamente como uma forma natural e não consciente de compensar a dissociação vivida pelos indivíduos que as desenhavam.

Depois do primeiro encontro memorável que teve com seu mestre em um congresso na Suíça, Nise voltou à Europa, onde estudou no Instituto C. G. Jung, em 1957, e depois novamente, em 1962. Após seu primeiro período no Instituto, retornando ao Brasil, formou o Grupo de Estudos

C. G. Jung. Escreveu, entre outros, o livro Jung: vida e obra, publicado pela primeira vez em 1968.

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legendas

Grupo de Estudo C.G Jung . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Carlos Pertuis . 1949 . óleo sobre papel 61,5 x 44,7 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Almir Mavignier . 1957 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII

Mandalas

A força Autocurativa

Como interpretar essa aparente contradição – pessoas definidas como seres partidos (esquizo: cisão; phrenis: pensamento), produzindo, em grande quantidade, imagens circulares, símbolos universais da unidade, da integração e da totalidade do ser?
— NISE DA SILVEIRA

Inicialmente eu não acreditava que fossem mandalas. “Esquizofrênicos não podem fazer isso”, pensava ainda com preconceitos da psiquiatria tradicional. A gente não se livra disso facilmente. Eu relacionava mandalas à filosofia oriental, ao instrumento de contemplação, às formas perfeitas que servem para concentrar, arredondar a mente. No entanto, elas apareciam em desenhos de esquizofrênicos que, por definição, eram pessoas espatifadas!
— NISE DA SILVEIRA

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Fernando Diniz . 1957 . óleo sobre papel 48,3 x 33,2 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Carlos Pertuis . óleo sobre papel 38,5 x 49,6 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Carlos Pertuis .1958 . óleo sobre tela 50,3 x 60,7 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Carlos Pertuis . óleo sobre papel 35,7 x 41,5 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Fernando Diniz . guache sobre papel 37,8 x 56 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Fernando Diniz . guache sobre papel 23,7 x 32,7 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira

Contos e Inconsciente

Os contos de fada são o relato simbólico da experiência acumulada sobre a vida, um produto do inconsciente coletivo. Eles possuem uma estrutura narrativa própria e as mesmas funções para personagens diferentes; estão repletos de símbolos que nos remetem aos arquétipos. Comparando os contos de fada com as operações alquímicas, é possível perceber que ambos indicam o caminho de transformação do indivíduo do estado de “pedra bruta” até atingir a união da consciência com o centro de si mesmo. Ou seja, atingir a individuação, a pedra filosofal dos alquimistas.

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Rafael Bqueer . Alice e o chá através do espelho, 2014 . Foto-performance, Belém-PA 130 x 80 cm . Registro: Paulo Evander Castro . Coleção do Artista

O Livro Vermelho de Jung

Talvez uma das publicações mais revolucionárias para a psicologia contemporânea, o Livro vermelho é uma jornada pelo mundo interior do próprio psicanalista suíço Carl Gustav Jung. Pode-se dizer que o livro contém duas camadas de texto, uma em que se leem as dúvidas, os sonhos, as premonições e as visões de Jung – seu inconsciente por escrito – e outra que representa a interpretação desse conteúdo. Jung começou a escrever o livro no início do século XX, num momento de bastante indecisão teórica, mas o guardou por anos num cofre na Suíça. O livro só foi publicado em 2009, quase 50 anos após a morte de seu autor.

O registro das experiências pessoais, à luz do desenvolvimento da ciência da época, colocaria Jung numa situação de herético, louco ou místico, e talvez por isso o psicanalista tenha decidido não publicar o livro em vida. No entanto, parece ter sido por meio deste que Jung desenvolveu seu processo de individuação, em direção à autorrealização.

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O Livro Vermelho, Liber Novus. C.G JUNG.

Tiago Sant’Ana

O artista visual Tiago Sant’ana vem visitando ruínas de engenhos de açúcar no Recôncavo Baiano desde 2017. Suas ações concentram-se nas memórias de ancestralidades negras, transformando a energia de violência e extermínio destes espaços em pulsão de vida.

Tiago investiga a naturalização da mão de obra escravizada e suas performances funcionam como um dos processos da produção de açúcar, um “purgar, tornando límpidas muitas memórias que foram silenciadas por uma história oficial”.

O Engenho é aquilo que acontece dentro das nossas cabeças-almas, é a missão de construirmos performativamente um estranhamento da história única que nos foi contada.

Essa é uma frase de Tiago, mas poderia ter sido dita pela doutora Nise. Como ela, o artista baiano se vale da energia criativa e transformadora para gerar a esperança da renovação.

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Tiago Sant’Ana . Refino #2 . 2017 . vídeo, duração: 7’1”. Coleção do artista | Tiago Sant’Ana . Passar em branco . 2018 . vídeo, duração: 8’6”. Coleção do artista | Tiago Sant’Ana . Açúcar sobre capela, 2018 . vídeo, duração: 7’4”. Coleção do artista

Fernando Diniz

Em busca do espaço cotidiano

A psicologia tradicional despreza o estudo das vivências do espaço. O mesmo homem que responde corretamente no consultório médico “sim, doutor, eu me chamo fulano de tal, estou no hospital de Engenho de Dentro”, poderá revelar no ateliê de pintura a vivência de situações espaciais completamente subvertidas.

Pouco antes de ser internado, [Fernando] tinha a impressão que, na rua, os edifícios inclinavam-se sobre ele. Como para esmagá-lo. Na sua pintura, objetos diversos acham-se muito próximos uns dos outros, sem espaço livre entre si. Desfilam em atropelo recordações da infância, conhecimentos escolares, imagens de experiências externas e internas, intrincadas umas às outras. […] Foi como vente acompanhar Fernando nos seus esforços para sair dessa condição opressora.
— NISE DA SILVEIRA

legendas

Fernando Diniz . 1955 . óleo sobre tela 41 x 32,5 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Fernando Diniz . 1953 . óleo sobre tela 60,5 x 50 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Fernando Diniz . 1952 . óleo sobre tela 46,4 x 37,8 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Fernando Diniz . Meninos Brancos . 1956 . óleo sobre tela 61 x 50 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira

Dionisio

Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
— CHICO BUARQUE E FRANCIS HIME (1984)

Uma vez por ano, e só uma vez (por que só por uma vez?), deixamos passar pela avenida o Carnaval. A avenida da letra é simbólica, porque a catarse passa por becos, praças, vielas, casas, cidades, esquinas, e encontra-se fantasiada, alegre, banhada pela embriaguez da fantasia, por todo tipo de gente que, embalado por uma alegria fugaz e ofegante, permite-se simular a evolução da liberdade. O poeta diria que isso é que é a vida boa, passeando diante do estandarte do sanatório geral – que vai passar.

Por um dia, afinal,
tinha direito à alegria.

Talvez, Nise da Silveira quisesse também subverter a ideia do Carnaval pontual de cada ano. Talvez quisesse que fôssemos mais Carnaval todo dia. E talvez, afinal, pensasse que temos outra opção. Que se, talvez, quiséssemos, pudéssemos, devêssemos, precisássemos, poderíamos, como método, expressar afetos por toda nossa avenida – a vida –, que é existência e coexistência. Inaugurar uma nova forma de passar por cada paralelepípedo, lembrando-se dos pés que sangraram, dos nossos ancestrais, das páginas infelizes, mas em direção ao encontro regado pelo afeto e pela revolução instaurada por um modo de ver a vida que tem como premissa a beleza da individualidade e sua condição coletiva.

Sinto, logo percebo o outro. Só assim vai passar. Vai passar.

Liberdade, liberdade!
Abra as asas so nós
E que a voz da igualdade
Seja sempre a nossa voz.
— NILTON TRISTEZA, PRETO JOIA, VICENTINHO E JURANDIR (1989)

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Mosaico de Dionísio, por volta de 220-230 d.C. Museu Romano-Germânico, Colônia, Alemanha |  Carlos Pertuis . Dois velhos comunicam-se entre si e riem. Aquele que está no meio da tela usa vestes verdes e traz sobre a cabeça uma folha de vinha. Atrás dele, está uma figura humana com cornos negros e pescoço peludo. O Dionísio velho e a inseparável sombra do deus – o bode. . 1959 . óleo sobre tela 50 x 61 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Carlos Pertuis . Grupo de mulheres que lembram bacantes, e sátiro. Essas figuras simbolizam as forças elementares da natureza, a vitalidade dos instintos. O sátiro, com seus cornos que o aproximam do animal, está pintado em verde, cor da vegetação, sugerindo ainda mais íntima conexão com a natureza. Por esses atributos, o sátiro pode representar aspectos do próprio Dionísio. . 1955 . óleo sobre tela 37,7 x 46 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira