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Prisão da Ditadura Vargas . Prontuário no DOP . 1936 . Arquivo Publico do Estado do Rio de Janeiro | Foto de Adriana Lorete . 1988 . Nise aos 83 anos com as amigas que conheceu na época de detenção: Maria Werneck, 79 anos e de pé Beatriz Bandeira Ryff, 78 anos . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Foto de Mario Magalhães da Silveira, com Nise, na residencia do casal . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII

Um atelier humano

A seção de terapêutica ocupacional

A lei primordial da criação é a atividade.
— HERMANN SIMON (1937)

Quando voltou ao serviço público e criou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do hospital de Engenho de Dentro em 1946, o desafio da doutora Nise era consolidar a terapêutica ocupacional como um método legítimo, sem o rótulo de “mero passatempo” que essa técnica recebia naquele ambiente alinhado aos tratamentos emergentes na época. A terapia era indicada a pacientes encaminhados por psiquiatras de outros setores do hospital e a qualidade do que era produzido ali não deveria ser levada em conta.

As atividades podiam ser utilitárias (jardinagem, encadernação, costura, sapataria); expressivas (pintura, modelagem, música); recreativas (jogos, festas, cinema) ou culturais, ligadas ao ensino e ao estudo. Eram prescritas para favorecer a afirmação da individualidade e a liberdade de expressão ou proporcionar uma satisfação imediata, oferecendo meios para a sociabilidade.

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Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Frequentadores do atelie de modelagem . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Fernando Diniz modelando uma estrela Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII

Biblioteca

A biblioteca de Nise da Silveira ocupava a sala e os dois quartos do apartamento acima daquele onde morava. O apuro na seleção das centenas de livros contrastava com a simplicidade das estantes de tábuas de madeira, apoiadas em tijolos. Literatura, artes plásticas e filosofia dividiam espaço com recortes de jornais, catálogos de exposição, obras completas de Antonin Artaud, Machado de Assis, Freud e C. G. Jung, além de livros de medicina, epistemologia e religião e uma prateleira com livros sobre gatos.

De todas as prateleiras da seleta biblioteca, a mais importante é a que guarda os livros de correntes teóricas variadas, que tratam dos estudos sobre a expressão plástica, principalmente de pessoas que se encontram em tratamento psiquiátrico. Para facilitar o caminho a ser percorrido por (improvável) pesquisador, Nise da Silveira elaborou uma lista de livros comentados ao qual deu o seguinte título: “pequeno fichário relativo a obras sobre expressão plástica de psicóticos e algumas dicas para o benedito”. Este foi o campo de trabalho privilegiado por Nise da Silveira, e, sendo assim, perguntava-se: “Quem será o Benedito que vai se interessar por estes livros?”.
— TEXTO ADAPTADO, WALTER MELLO (2007)

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Margaret de Castro . Biblioteca Nise #1 . 2021 . acrílica sobre tela . Pintura feita a partir de livros selecionados da biblioteca do Museu de Imagens do Inconsciente, muitos deles provenientes da biblioteca pessoal de Nise da Silveira.

O museu de imagens do inconsciente

Os ateliês de pintura e modelagem se destacaram em meio às outras atividades da Seção de Terapêutica Ocupacional. As obras ali produzidas constituíam um meio de acesso ao mundo interno dos pacientes e foram tão numerosas e importantes para o estudo científico dos processos psíquicos que, em 1952, a doutora Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente.

O museu define-se como um centro vivo de estudo e pesquisa sobre os documentos plásticos produzidos ali diariamente. A pesquisa, de caráter interdisciplinar, envolve experiência clínica, psicologia, psiquiatria, antropologia cultural, história, arte e educação.

Com um acervo de mais de 350 mil obras e em constante crescimento, o museu tem a maior e mais diferenciada coleção do gênero no mundo, e suas principais obras são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

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Vista do corredor da sede ocupada pelo Museu entre 1956 a 1981 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Inauguração das novas instalações do Museu em 1956 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Nise na exposição em homenagem a Isaac, na sede do museu, após sua morte em 1966 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII

O método e o favorecimento do processo de autocura

A doutora Nise apresenta uma nova concepção de loucura, não mais como rótulo, diagnóstico ou lista de sintomas, mas como uma experiência humana, um estado do ser. 

Utilizando um método interdisciplinar aplicado às séries de imagens para extrair-lhes conteúdos significantes, que encontra forte fundamento na psicologia analítica de Jung, Nise nos trouxe conhecimentos cujos conteúdos são universalmente assimiláveis, ou seja, ultrapassou a fronteira do território médico, trazendo reflexões que dizem respeito ao interior da psique do ser humano enquanto espécie, como resultado de experiências.

Não se trata de fazer arte, diz Jung, mas de produzir um efeito sobre si próprio. Aquele que até então permanecia passivo, agora começa a desempenhar uma parte ativa. Retendo sobre cartolinas fragmentos do drama que está vivenciando desordenadamente, o indivíduo despotencializa figuras ameaçadoras, conseguindo desidentificar-se de imagens que o aprisionavam.

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Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Os monitores Arnaldo e Mara do Carmo, Nise e Adelina. Emygdio ao fundo em frente a tela, 1972 . Arquivo Pessoal Nise da Silveira . SAMII | Renata Inocencio . 2012 . óleo sobre tela 40 x 60 x 2 cm . Museu de Imagens do
Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira

A História de Beta

Albertina Borges d’Rocha nasceu em 1930. A primeira crise chegou quando tinha 34 anos. Passou por anos de luta, internações e terapia nos ateliers do Museu de Imagens do Inconsciente, onde fundou o jornal O Universo. Com ajuda da escrita, Beta encontrou seu próprio caminho, voltando às atividades cotidianas. Escrever o livro A história de Beta e tornar públicos seus Cadernos íntimos, com relatos sobre as crises e as internações, verificou-se como um ato de coragem e um exemplo sobre como facilitar o processo de autocura.

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Beta d’Rocha . guache sobre papel 28,4 x 35,9 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Beta d’Rocha . guache sobre papel 35,5 x 28,1 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira | Beta d’Rocha . guache sobre papel 21,7 x 32,3 cm . Museu de Imagens do Inconsciente . Instituto Municipal Nise da Silveira